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Outubro Rosa: sobre dor e cuidado



Meu corpo dói:

Sinto como se a ponta de uma faca perfurasse minha coluna lombar.

A dor que irradia para as pernas me angustia pela incapacidade causada.

Não costumo parar para pensar no meu corpo dessa forma.

Normalmente ele me serve bem e garante que eu possa cumprir minhas tarefas e planejamentos.

Mas nossos tratos de cuidado muitas vezes se limitam a higiene e alimentação.

É claro que você se preocupa com a mente, com como cuida do seu cérebro e sua saúde emocional.

Mas o corpo fica tutoriado pela quantidade de carga mental.

Não é porque sua dor é psicológica.

É porque você não parou para pensar que trabalhar por mais de 16 horas trabalhando sentado poderia te prejudicar.

Porque não lembrou de parar para descansar, para se massagear, para se exercitar ou até mesmo dançar.

O aprendizado é vasto.

Enquanto sinto dor aprendo a reconhecer minhas limitações.

É um exercício assustador do enfrentamento da dor com técnicas ao longo do dia, desde o acordar descobrindo o corpo e seu estado geral, no primeiro movimento ter de dar conta que a dor continua e trouxe novas limitações e contratempos.

É assustador não poder trabalhar.

Meu cérebro não acompanha a imobilidade do meu corpo, assim como o tempo e a vida são mais sábios do que os meus planos.

Fico aqui fazendo o possível para me livrar da dor.

Compressas mornas, Tiger balm

Bola de pilates para descompressão

Acupuntura, biomagnetismo,

Fisioterapia, repouso e alimento

Higiene, massagem, mais repouso,

Mais reposicionamento de tudo que havia planejado.

A dor continua dominando a sua mente em todo o processo.

Estranhamente minha mente projeta medos que eu não sabia que tinha.

O único motivo para eu conseguir escrever neste momento é o desespero em racionalizar o meu sentir para organizar meu pensamento que é sempre tocado pela realidade da dor.

Escrevo em um caderno deitada com um travesseiro fazendo apoio em meu quadril, a posição possível para eu não agonizar em dor.

Escrevo apoiando em meu tronco o papel e a caneta domina o movimento de meus braços.

Tenho medo de enlouquecer por viver um presente tão angustiante.

Penso nos usuários da Clínica da Família que atendia na Atenção Primária em Saúde na dor que eles relatavam que sentiam há meses e que os impedia de trabalhar.

Muitas vezes eles já chegavam solicitando a conduta de prescrição de medicamento para aliviar a dor incapacitante e voltar ao trabalho. Era um sofrimento sem fim e muitos, no máximo, tinham acesso à fisioterapia e hidroginástica, isso quando eram atendidos pelo médico da equipe ou de algum clínico em ambulatório de clínica popular por gastarem os poucos recursos da família nessa busca pela solução de suas dores.

Muitas idosas também eram portadoras dessas dores crônicas, sempre tratadas como “poliqueixosas” na clínica, normalmente eu costumava simpatizar com a dor das pessoas chamadas assim.

Eu normalmente penso que se uma pessoa está angustiada a ponto de explodir com o próximo, a sua dor deve ser acolhida e sanada com todos os recursos disponíveis e acalmada, não apenas por você, mas por todo ambiente em que vive e a comunidade que está perto de você. Sua família, seus amigos, os vizinhos próximos, todo mundo é afetado quando alguém que está perto sente dor.

Nós somos pessoas que estavam no fluxo da vida planejada e se depararam com a limitação do corpo pela dor. A dor vem de uma lesão física. Um nervo inflamado na minha coluna lombar, a suspeita é de ter desenvolvido uma hérnia de disco que já está afetando meus membros inferiores.

Não consigo evacuar sem me dobrar sobre meus joelhos.

Hoje eu tive acupuntura com choque e não sentia o ponto que foi eletro estimulado, foi assustador.

Sentir minhas pernas de maneira diferente é assustador.

Pensar no que será necessário para resolver a dor definitivamente é minha maior preocupação do momento.

Aguardo o resultado da ressonância magnética que tive o privilégio de poder fazer, mas que só fica pronta em seis dias úteis. O que não é de forma alguma o correto tendo em vista meu nível de dor e a limitação na realização de minhas atividades de vida diária.

Aqui eu já tenho que explicar que apesar de minha necessidade médica ser urgente estamos no meio de uma pandemia com a agudização de um processo de desgaste de minha coluna por tempo de trabalho na mesma posição, por conta de home office e pelo fato de que estou presa em casa e não ter também me atentado que além de ficar viva, fazer as medidas de distanciamento social, me manter ativa em meus ideais, em meu trabalho, nos meus estudos, nos meus relacionamentos com amigos, no processo artístico, no companheiro, na família do companheiro, das pessoas que precisam de ajuda e te pedem, de apoiar as iniciativas que vê e tocam no seu coração, de cuidar da casa, de se alimentar direito, de cumprir deveres e pagar contas, e organizar ações para tentar mudar o mundo.

Eu vou fazendo tudo isso e me esqueço de me exercitar e fico com problema de coluna e sei que eu pude ir em um especialista de coluna, fisioterapeuta, acupunturista, minha amiga enfermeira fez biomagnetismo em mim, meu companheiro me acompanha e cuida de cada detalhe, tenho acesso a comida e tudo que já falei.

Mas e os usuários da Clínica da Família?

Eu sinto que preciso escrever para entender o que sinto nesse momento de dor e me deixo levar por esse sentir.

Eu não conseguir me livrar da dor é assustador e angustiante, eu me sinto em uma caixa de metal que libera um som agudo que machuca cada poro do meu ser.

E isso me impede de interagir com o outro de maneira ponderada, sinto que vou ficando mal humorada, que só consigo falar da dor, que só consigo viver essa dor, que só tenho medo porque tenho essa dor, que o outro me vê como peso porque tenho essa dor, que vou deixar de ser útil se eu não me livrar dessa dor, que eu preciso me sustentar mesmo que eu sinta essa dor, que eu vivo em um sistema capitalista e tenho que me virar apesar dessa dor e agora eu me pergunto não só por mim ou pelos usuários da Clínica da Família poliqueixosos com problemas crônicos, ou os trabalhadores com lesões por esforço repetitivo, ou com hérnia de disco, ou trabalhadores que estão fazendo home office e começam a apresentar alguma dor crônica, ou todos que sentem dores, os que nasceram com doenças crônicas e que limitam seus movimentos e os que não conseguem nomear o que estão sentindo, como a gente faz pra tirar essa dor?

A da coluna e a do sistema que não dá acesso a um cuidado integral para os usuários e seus trabalhadores. Que não me permite que os trabalhadores de saúde tenham tempo para perceber as miudezas e infinitos que existem na dor de uma pessoa.

Que não permite que o poliqueixoso vire uma pessoa que teve um problema de saúde, que foi acolhida e que agora tem um novo padrão de vida porque reorganizou sua rotina para cuidar de sua saúde, mas que também tem uma rede ativa que a apoia com atendimento psicológico, fisioterapia, grupo com outras pessoas que também sentem dor, acompanhamento de enfermagem, médico, apoio da família e do trabalho que adapta as atividades que a mesma poderá desempenhar em seu retorno, mas sem arriscar sua chance de ter um teto, uma casa com a comida necessária para viver e que possa depois de ter vivido esse processo de reabilitação que podeira voltar e ajudaria outras pessoas que passam pelo mesmo processo.

Isso poderia ajudar as pessoas.

A verdade é que a maioria dos meus usuários não ter tido acesso à fisioterapia, quanto mais acesso a acompanhamento psicológico para aliviar as suas dores só gera mais sofrimento e incapacidade de resolução de problemas de um jeito mais eficiente e humano.

Eu sinto muito pela dor de cada um deles e da minha também, eu mesma, apesar de estar bem assistida, ainda assim sou resultado da lógica de um sistema capitalista, em uma pandemia, o que me causa dor e limitação de movimento e também percepções sobre esse estado de dor de outras pessoas que podem identificar com esse meu processo.

Maria Mitsuko

14/10/2020

05:07

Escrito e desenhado em papel por Maria Mitsuko, texto digitado e revisado por Sarah John. Gratidão ao Coletivo Nós, as Poetas! por possibilitar essa construção, aos companheiros de arte,estudo e de pesquisa na ENSP por me apoiarem e acolherem nesse momento de aprendizado, reabilitação e adaptação. Texto em homenagem aos meus usuários por continuarem me ensinando tanto e a mim mesma por me permitir esse autocuidado e por me liberar espaço para sentir e ser.


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